TARSILA DO AMARAL in PARIS PINTA O BRASIL MODERNO

Exposição única e imperdível em Paris. Figura central do modernismo brasileiro, Tarsila do Amaral (ou Tarsila, seu nome artístico) é criadora de uma obra original e evocativa que se inspira tanto no imaginário indígena e popular quanto nas autoridades modernizadoras de um país em plena transformação.


Auto-retrato (casaco vermelho), 1923

Lembro-me de Tarsila no teatro Trocadéro, com uma capa escarlate forrada de cetim branco. Em Paris, onde as pessoas se vestem discretamente, a vaidade de Tarsila causou sensação. Ficamos em êxtase contemplando a obra-prima da Tarsila, que é a personalidade dela! Tarsila se veste de arte.

Esses relatos da época mostram o cuidado que Tarsila tinha com sua aparência, inclusive com a elegância de seus looks. O casaco vermelho Patou, que ela usava em eventos sociais parisienses, identifica tanto a artista que dá título a um dos autorretratos mais conhecidos, produzido enquanto Tarsila frequentava o ateliê de Lhote (primavera de 1923).

Carnaval em Madureira, 1924

Em 1924, com seus amigos modernistas, Tarsila visitou o Rio de Janeiro durante o carnaval.

Em Madureira, bairro popular da cidade, ela descobriu uma réplica em madeira da Torre Eiffel, uma homenagem ao aviador brasileiro Alberto Santos Dumond que voou em um dirigível no céu da Cidade Luz em 1906.

Enquanto brincava com o confuso deslocamento desse símbolo parisiense para os subúrbios brasileiros, Tarsila se apropria do tema do carnaval, da cultura popular, como tema nacional.

Ao estilo de O Mamoeiro, em que uma favela carioca se apresenta como uma vila tranquila e colorida, este bairro popular do Rio de Janeiro encarna, em Tarsila, um espaço ideal e romântico em que elementos díspares, até contraditórios, coexistiriam sem conflito.

A Negra, 1923

Dedicada inicialmente como uma homenagem modernista à população afro-brasileira, depois apontada como ilustração dos estereótipos racistas e sexistas próprios das sociedades brasileira e francesa da década de 1920, esta mulher negra que nos olha de frente ainda não terminou de questionar seu público.

Embora Tarsila tenha dito que se inspirou na memória de um ex-escravo que morava na fazenda da família, uma folha de bananeira estilizada ao fundo, sugere um ambiente tropical. Epersonagem, pintada em Paris em 1923, lembra menos um retrato do que uma composição perfeitamente em sintonia com os tempos, em que uma escultura totêmica africana encontra as geometrias coloridas de um Léger.

Quando a expôs em Paris, Tarsila intitulou esta obra “A Negra”, talvez pensando na Negra Branca que Brancusi esculpiu no mesmo ano. É, aliás, como ícone “primitivo” e “moderno”, segundo os cânones parisienses da época, que Cendrars a escolheu para ilustrar a capa da coletânea de poemas que dedicou à sua viagem ao Brasil. Mas A Negra também se reconecta com a iconografia bem brasileira da “mãe negra”, estetizando a figura das mulheres afrodescendentes no papel de babá ao qual há muito estão relegadas.

Cartão Postal, 1929

Trabalhadores e trabalhadoras

No final de 1929, separada de Oswald de Andrade, Tarsila sofreu todo o impacto das consequências da quebra da bolsa de Nova York. Com seus imóveis hipotecados, ela deve se acostumar a um estilo de vida muito mais modesto do que aquele que conhecia até então.

Ao lado de Osório César, jovem médico e intelectual, se interessou pelo modelo econômico e social promovido pelo governo soviético. Uma viagem à URSS e suas ideias políticas – que lhe custaram a prisão, em 1932, no governo de Getúlio Vargas – marcam o conteúdo e o estilo de suas novas pinturas, que seguem os preceitos do “realismo social”.

As classes trabalhadoras, evocadas pelas silhuetas anônimas das pinturas da década de 1920, tornam-se agora as verdadeiras protagonistas de seus afrescos sociais, à medida que as cores vivas dão lugar a tons mais sóbrios.

Enquanto, a partir de 1937, a ditadura relegou às mulheres artistas à modelos tradicionais e temas intimistas, Tarsila continuou a explorar o mundo do trabalho com um olhar crítico ou poético, seja no ambiente rural, urbano ou industrial, interessada também pelo estatuto da mulher.

OPERÁRIOS

Operários, 1923

Modelos de realismo social e muralismo mexicano marcam a principal pintura ativista de Tarsila, cuja composição diagonal é inspirada em um pôster da artista soviética Valentina Kulagina.

A celebração da diversidade étnica do povo brasileiro, já evocada nas obras da década de 1920, ganha uma conotação verdadeiramente social nesta homenagem à classe trabalhadora paulista, representada por esses rostos de todas as origens, tendo como pano de fundo uma cultura industrial.

Há alguns retratos significativos: o do arquiteto Gregori Warchavchik, cujas construções racionalistas revolucionaram o habitat de São Paulo; Eneida de Moraes, presa com Tarsila em 1932; sua amiga íntima, a cantora Elsie Houston, ou mesmo o administrador da fazenda de sua família.

Na década de 1950, Tarsila se dedicou a inúmeras encomendas e projetos de ilustração, ao mesmo tempo que participou de exposições coletivas, incluindo as duas primeiras bienais de São Paulo.

Com um olhar retrospectivo sobre seu trabalho, ela revisita, atualizando, os motivos de suas composições anteriores. Experimenta diferentes registos formais, variando a forma de articular as formas geométricas e orgânicas que sempre caracterizaram o seu vocabulário pictórico.

Sempre atenta às mudanças em seu entorno, Tarsila acompanha as transformações da paisagem urbana brasileira e em particular de São Paulo, com seus cada vez mais altos arranha-céus azul-acinzentados com vista para casas antigas e vegetação tropical.

Ela também se mostrou receptiva aos códigos visuais mais atuais, enquanto, no final da década, a abstração geométrica e informal estava a todo vapor. O paisagista Burle Marx multiplicou seus jardins multicoloridos de plantas nativas, e, sob a direção de Oscar Niemayer e Lucio Costa, as obras da nova capital, Brasília, apenas começaram.

TARSILA DO AMARAL

Peindre le Brésil moderne

De 9 de outubro de 2024 até 2 fevereiro de 2025 

10:30 – 19:00

Musée du Luxembourg

📍19 Rue de Vaugirard, 75006 Paris

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